O velho e o mar 2

Agora sabia que o peixe estava de fato ali e as mãos e as costas não eram nenhum sonho. “As mãos curam-se depressa”, pensou o velho. “O sangue limpou-as e o sal da água fará com que cicatrizem. A escura água do golfo é o melhor remédio para isso. Tudo o que preciso fazer é conservar a cabeça lúcida. As mãos cumpriram a sua obrigação e estamos navegando bem. Com a sua boca fechada e a enorme cauda erguendo-se no ar, navegamos os dois como irmãos.” Começou a sentir-se de novo tonto e perguntou a si próprio: “Será ele que me está arrastando ou serei eu que o estou rebocando? Se eu fosse atrás dele, a reboque, não haveria dúvida. O mesmo sucederia se o peixe estivesse dentro do barco, com toda a sua dignidade derrotada: dessa forma também não haveria a menor dúvida.” Mas estavam navegando os dois juntos, ligados um ao outro, e o velho pensou: “Deixe que seja ele que esteja rebocando, se isso lhe agrada. Só consegui ser melhor do que ele por uma traição e ele não me desejava nenhum mal.”

Hemingway, Ernest. O Velho e o Mar

O velho e o mar 1

Adormeceu quase imediatamente e sonhou com a África de quando era garoto, com as extensas praias douradas e as areias brancas, tão brancas que feriam os olhos, e com os cabos que se erguiam majestosamente sobre o mar, e com as enormes montanhas castanhas. Agora vivia nessas costas todas as noites e, nos seus sonhos, ouvia o marulhar das ondas e via os barcos dos nativos que singravam as águas. Sentia o cheiro do alcatrão e dos cabos da coberta, e parecia-lhe sentir o aroma da África que a brisa da terra trazia pela manhã. Geralmente, quando cheirava a brisa da terra, levantava-se, vestia-se e ia acordar o garoto. Mas esta noite a brisa da terra veio mais cedo do que de costume e, mesmo em sonho, o velho sabia que ainda era muito cedo e continuou a sonhar com os cumes brancos das ilhas que se erguiam do mar e depois com os diferentes portos e estradas das Ilhas Canárias. Havia muito tempo que não sonhava com tempestades nem com mulheres, nem também com grandes acontecimentos ou grandes peixes, ou lutas, ou desafios de força, nem mesmo com a sua mulher. Agora sonhava apenas com lugares e com os leões na praia. Os leões brincavam na areia como gatinhos e ele os amava tal como amava o garoto. Nunca sonhava com ele. Acordou, viu a lua pela porta aberta, desenrolou as calças e vestiu-as. Fez as suas necessidades atrás da cabana e depois seguiu pela estrada para ir acordar o garoto. O frio da manhã fazia-o tremer. Mas sabia que aqueceria depressa e que breve estaria remando.

Hemingway, Ernest. O Velho e o Mar

Carta

Ari,

 

Se tem algo que eu faço ao seu lado é brincar de viver. Você é essa pessoa que me lembra que se uma lágrima escorre, ela vem porque o mundo te disse não, mas que existiu um bom motivo pra isso. Que se os últimos meses, talvez os últimos anos, foram difíceis, foram pra que eu conseguisse reconhecer e perceber a importância de que eu quero ver feliz quem anda comigo. Ari, você tem sido crucial na minha vida. Eu sou o resultado e fruto direto das minhas relações e amizades e amores. Você só teve a contribuir com isso de maneira maravilhosa. Se hoje eu consigo ver que certos obstáculos estão sendo superados, é porque você esteve lá pra me ajudar a derrubá-los.

 

Eu não tenho nem como te agradecer por tudo que você me faz.

 

Se a vida é esse emaranhado de ideias brigando pra ver qual fará do mundo um lugar menos pior, eu quero estar ao seu lado pra respondermos sim à nossa imaginação.

 

Te amo muito,

A pureza dos meus sentimentos

Eu certamente já questionei a sinceridade dos meus pensamentos. No entanto, posso dizer que minha cabeça é quase sempre verdadeira quanto aos seus sentimentos.

Fico relendo aqui uns rabiscos, uns posts antigos nunca publicados (um dia os publicarei), e percebo o quão melancólico eu sou, quanto esses sentimentos e pesares são tão comuns nas minhas reflexões.

Cada escrito meu é como se fosse um cartão postal antigo, apagado, de uma viagem de que ninguém nem se lembra mais, escrito pra alguém que nem é mais presente. Fica esse ar pesado na sala, cheirando cigarro, essa meia-luz patética fingindo ser cool, pagando de ermitão dos próprios pensamentos.

 

Me dá vontade de rasgar todos, mas quem sou eu senão essa imagem que eu tento passar de mim mesmo?

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Eu adoro seus cabelos grisalhos. Cabelos grisalhos.

Boa noite.

Muita, muita coisa aconteceu desde a última vez

que eu escrevi aqui.

Eu viajei pela Europa. Eu tive depressão e ataques de pânico. O Brasil passou por eleições. Eu fui pra Belém. Eu tive um amor de verão. Eu fiz terapia. Eu lembrei minha família de que sou gay. Eu empaquei no doutorado. Eu submeti um artigo pra um congresso e foi aceito. Eu viajei pra Buenos Aires.

Tudo isso em seis meses. Tudo foi muito lindo e muito terrível, como é toda parte de nossa vida. A nossa vida é fractal.

Eu comprei um diário e tô escrevendo mais lá do que aqui, por sinal. É um diário de cinco anos, em que você escreve poucas linhas por dia.

Eu sinto que a vida está fluindo por mim. Por bem ou por mal.

Rápida atualização

O fim do mês de junho, o mês de julho e o início do mês de agosto foi um período muito intenso na minha vida.

 

Muita coisa aconteceu, como meu último semestre de matérias do doutorado, minha primeira viagem pra europa e minhas últimas qualificações de matérias do doutorado. Por isso, caros leitores inexistentes, não postei nada aqui. Farei uma espécie de especial sobre a viagem pra Europa.