O velho e o mar 1

Adormeceu quase imediatamente e sonhou com a África de quando era garoto, com as extensas praias douradas e as areias brancas, tão brancas que feriam os olhos, e com os cabos que se erguiam majestosamente sobre o mar, e com as enormes montanhas castanhas. Agora vivia nessas costas todas as noites e, nos seus sonhos, ouvia o marulhar das ondas e via os barcos dos nativos que singravam as águas. Sentia o cheiro do alcatrão e dos cabos da coberta, e parecia-lhe sentir o aroma da África que a brisa da terra trazia pela manhã. Geralmente, quando cheirava a brisa da terra, levantava-se, vestia-se e ia acordar o garoto. Mas esta noite a brisa da terra veio mais cedo do que de costume e, mesmo em sonho, o velho sabia que ainda era muito cedo e continuou a sonhar com os cumes brancos das ilhas que se erguiam do mar e depois com os diferentes portos e estradas das Ilhas Canárias. Havia muito tempo que não sonhava com tempestades nem com mulheres, nem também com grandes acontecimentos ou grandes peixes, ou lutas, ou desafios de força, nem mesmo com a sua mulher. Agora sonhava apenas com lugares e com os leões na praia. Os leões brincavam na areia como gatinhos e ele os amava tal como amava o garoto. Nunca sonhava com ele. Acordou, viu a lua pela porta aberta, desenrolou as calças e vestiu-as. Fez as suas necessidades atrás da cabana e depois seguiu pela estrada para ir acordar o garoto. O frio da manhã fazia-o tremer. Mas sabia que aqueceria depressa e que breve estaria remando.

Hemingway, Ernest. O Velho e o Mar

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