Gógol Ganguli

In O xará – Jhumpa Lahiri:

Uma vez eles tinham ido a Cape Cod, percorrendo esse trecho curvo de terra até não poderem mais seguir de carro. Ele e o pai tinham caminhado até a ponta, cruzando a arrebentação, uma feixa de pedras cinzentas, oblíquas, gigantes, e depois sobre o último trecho estreito de areia, em forma de lua crescente. Sua mãe tinha parado depois de algumas pedras e ficado esperando junto com Sonia, que era pequena demais para ir com eles. “Não vão muito longe”, a mãe advertira, “não vão aonde eu não possa ver vocês.” As pernas dele começaram a doer na metade do caminho, porém o pai seguiu em frente, parando às vezes para dar o braço a Gógol, inclinando levemente o corpo quando ele se apoiava numa pedra. Enquanto ele estava sobre essas pedras, algumas delas espaçadas o suficiente para fazê-los parar e pensar no melhor jeito de alcançar a próxima, a água o cercava de ambos os lados. Era o começo do inverno. Patos nadavam nas poças de maré. As ondas fluíam em duas direções. “Ele é pequeno demais”, a mãe gritou. “Você está ouvindo? Ele é pequeno demais para ir tão longe.” Gógol parou nesse momento, pensando que talvez o pai fosse concordar. “O que você diz?”, o pai perguntou, porém. “Você é pequeno demais? Não, acho que não.”

No fim da arrebentação havia um campo de juncos amarelos à direita, dunas mais além e o oceano atrás de tudo aquilo. Ele estava esperando que o pai fosse voltar, porém eles tinham continuado, pisando na areia. Andaram ao longo da água para a esquerda, seguindo na direção do farol, e passaram por carcaças enferrujadas de barcos , espinhas de peixe grossas feito canos presas a crânios amarelos, uma gaivota morta cujo peito branco coberto de penas tinha manchas recentes de sangue. Eles começaram a recolher pedrinhas pretas desbotadas com listras brancas em volta, enfiando-as nos bolsos, o que os fez pender volumosos dos dois lados. Gógol se lembra das pegadas do pai na areia; por ele mancar, a ponta do seu sapato direito estava sempre virada para fora, o esquerdo apontado para a frente. As sombras deles dois naquele dia eram extraordinariamente delgadas e longas, inclinadas uma em direção à outra, com o sol do fim da tarde às suas costas. Eles pararam para observar uma boia de madeira rachada pintada de azul e branco, no formato de um antigo guarda-sol. A superfície estava envolta por finos fios de algas marrons e incrustrada de cracas. O pai a havia levantado e examinado, apontando para um marisco vivo embaixo dela. Por fim, eles chegaram junto ao farol, exaustos, cercados de água por três lados, azul-claro no porto, azul-celeste mais além. Aquecidos pelo esforço, abriram o zíper de seus casacos. O pai afastou-se para urinar. Ele ouviu o pai gritar – eles tinham deixado a câmera com a mãe dele. “Fizemos este caminho inteiro e não vamos tirar fotos”, ele disse, balançando a cabeça. Ele enfiou a mão no bolso e começou a jogar as pedras listradas na água. “Vamos ter que lembrar, então.” Eles olharam em volta, para a cidade cinzenta e branca que brilhava do outro lado do porto. Então deram início ao caminho de volta, tentando por um tempo não deixar novas pegadas, pisando nas que tinham acabado de fazer. Um vento começou a soprar tão forte que os obrigou a parar de vez em quando.

“Você vai se lembrar desse dia, Gógol?”, o pai perguntou, virando-se para olhar para ele, com as mãos pressionadas feito aquecedores de ouvido, dos dois lados da cabeça.

“Por quanto tempo tenho que lembrar?”

Por cima do vento que subia e descia, ele escutou a risada do pai. Estava ali parado, esperando Gógol alcançá-lo, e estendeu uma das mãos quando Gógol se aproximou.

“Tente lembrar para sempre”, ele disse quando Gógol chegou até ele, e o conduziu lentamente de volta, cruzando a arrebentação, até o lugar onde sua mãe e Sonia estavam esperando. “Lembre que você e eu fizemos esta jornada, que fomos juntos a um lugar de onde não havia mais lugar algum para ir.”

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