Carta a um fantasma do passado.

Olá,

Essa é uma declaração de amizade proveniente de uma redenção malfadada.

Uns anos atrás, quando nos conhecemos, tivemos primeiras impressões totalmente erradas um do outro.Eu achava que você era um simples garoto daqueles nerds da computação. No ápice da minha arrogância, descartei profundidade de sentimentos. Olhei pra um mero colega da minha colega. Nunca imaginaria tantas cicatrizes numa pessoa tão bela. E você, errou tudo sobre mim. Aposto. 

Com o tempo, me apaixonei por você como me apaixono por todos que entram na minha vida pra ficar. Homens, mulheres. Queria passar horas, dias, meses, conversando com você. E conversamos. Nos frios da USP gelada de madrugada, principalmente. E no verão. E no Morro da Coruja. E quando eu coloquei aquela lente amarelada do binóculo do nosso amigo, em que melancolicamente vaticinei o fim de uma época tão gostosa da minha vida. Naquele momento eu percebi que nunca mais teríamos tanta ligação profunda como tínhamos, aquele nosso grupo. Há apenas uma exceção.

Nunca te olhei sexualmente, confesso. Me perguntei várias vezes se eu tinha em mim essa possibilidade. Mas não era isso que eu sentia. Nossa relação era esquisita, mesmo, graças a uns padrões da sociedade que impedem a sensibilidade nos homens alfa. Passamos longe de sermos alfa, mas nosso objetivo inconsciente era sê-los.

Sempre te ouvi. E quanto mais ouvia você falar das desventuras que, cinco ou dez anos antes, marcariam seu comportamento, mais queria ouvi-las. Não sei o porquê. Mentira, sei porque. Porque me fascinava. Me fascinava saber como alguém perto de mim havia sofrido tanto, e numa vã esperança de poder ajudá-lo, pensava eu que poderia dar conselhos úteis. Nenhum foi útil. Mas em ter quem lhe ouvisse, nisso fui útil.

Mas tínhamos tanto em comum, que nossas personalidades eram incompatíveis. Brigávamos, discutíamos, como dois namorados que deram errado. Exceto que nunca namoramos. Só nisso já tem complexidade-de-relações-humanas o suficiente pra muito psicólogo analisar. Você me falava dos amigos antigos com quem não conseguiria mais manter uma relação e eu temia que esse momento chegasse pra gente.

Até que esse momento chegou. As intempéries da vida adulta nos afastaram. E eu virei um dos antigos amigos. Eu não soube aceitar isso. Eu, sim, estava longe, cada vez mais longe. Mas jamais gostaria de ser deixado de lado. Como que uma relação como a nossa poderia ser deixada de lado tão facilmente? 

Um novo emprego, um novo namoro, um novo mestrado. E os velhos amigos? Ficaram em fotos apagadas, em emails perdidos. Lembranças que ficaram em posts desse mesmo blog. Obviamente você soube rearranjar sua vida de modo a contemplar as importantes amizades do passado. Vejo fotos. E veio me contatar. Mas eu fui orgulhoso demais pra aceitar uma nova tentativa. Meu maior erro. Pois nunca mais nos falamos, e você me cortou, e eu queria falar de novo, mas não dá mais certo, e tudo ficou pra trás e…

Lembro claramente de te ouvir chorar após um desencontro amoroso, e lembro de como ficávamos sem ar ao ler A Insustentável Leveza do Ser. Lembro que ficávamos sem ar quando entrávamos no carro e ligávamos o ar quente no máximo. 

Muito obrigado por toda a amizade e desculpe por não saber aceitar a parte da vida em que se é adulto. Ainda estou aprendendo a entender esse aspecto.

Eu ficaria sem ar se pudesse me divertir com você mais uma vez.

Arthur.

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Nota: eu poderia tanto mais a escrever aqui, mas teria que acessar lembranças que me deixariam cada vez mais tristes por conta da melancolia que preferi manter esse rascunho absurdo de retalhos como ele está. É realmente muito difícil pra mim pensar em como tudo aconteceu.

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