Revisitando um passado inexistente.

Há um momento, acredito que na vida de todos, em que a revisitação do passado começa a ser permeada por experiências irreais, por fantasias ou por desejos.

Minha viagem por Belém, dessa vez, foi muito mais que libertadora. Passo tanto tempo sem ir àquela cidade que é impossível não me comparar com os outros Arthures que antes a visitaram. Não foi a primeira vez que fui adulto pra lá, mas foi a primeira vez que percebi ser enxergado como adulto. Meus pais ainda estão lá. Disse à minha avó que ela me ama tanto, mas tanto, apenas por causa da distância. E isso vale pra todo parente meu de lá. Nossas relações são maravilhosas, tenras, uma vez que não há intrigas, ciúmes, invejas, esses sentimentos horrorosos que estragam as relações entre pessoas que se vêem sempre.

Mas o sentimento que mais me tocou (daqueles que dão falta de ar, sabe) foi a nostalgia da minha mãe por Mosqueiro.

Mosqueiro é uma ilha, distrito de Belém, um balneário onde as pessoas costumam passar as férias. Possui praias lindas, com ondas, de uma baía de rios amazônicos, o rio Acará e o rio Guamá. O rio é tão grande que parece mar, mas a água é doce. Já fui muito a Mosqueiro, em minha infância, mas confesso que tenho poucas lembranças, e a maioria delas é por conta de fotos e vídeos VHS. As lembranças, porém, são muito vívidas. São dias muito quentes, com a família toda se reunindo e celebrando nada mais que as relações familiares, passeios pelas praias, almoços, jantares, festas, mesas grandes cheias de comida, caranguejos.

Minha mãe com certeza foi muito mais vezes pra Mosqueiro que eu. A casa de praia da minha família é lá, e lá ela sempre passava as férias de verão (que em Belém são em Julho). Ela tem essas memórias minhas ao quadrado. Vivendo esses últimos 24 anos aqui em Campinas, ela, sempre que pode, quer rever aquela praia e permitir que essas sensações nostálgicas permeiem seu corpo. Minha mãe é uma das únicas. Pra quem mora em Belém, Mosqueiro nem é tão mais atrativo. Algumas praias estão abandonadas, algumas casas decrépitas e o ápice do balneário parece ter passado. Tanto que nessa última viagem, quase ninguém quis ir à casa da família.

O encanto passou? Pra quem mora em Belém, ir pra lá sempre deve enjoar. Mas a minha mãe vem de uma época mais simplória, onde o longe era muito menos acessível que hoje. Hoje, a vontade dela não é só “ir pra praia”, não é só “comer tapioquinha de Mosqueiro”. Sua vontade implícita é revisitar seu passado. Ela não enxerga que a Praia Grande está cheia de pedras. Ela prefere se lembrar de quando ela e as irmãs saíam de tarde e pulavam os muros das mansões. Ela prefere se lembrar da juventude tão gostosa que teve. E isso tudo eu apenas suponho, já que minha mãe não é de falar sentimentos. Só que eu tenho uma conexão muito forte pra deixar de compreendê-la.

E todo esse acesso a sensações nostálgicas provoca em mim mesmo um turbilhão. Passando por um penhasco de Mosqueiro eu revi toda minha infância que não tive em Belém. Tudo que me foi privado, o contato com meus primos, com aquela cidade, tudo o que não me definiu. E como eu disse pra minha vó, é essa falta de contato que me faz armazenar essas pouquíssimas memórias que tenho de Belém com o maior apreço. O maior apreço mesmo: não tem muitas coisas que prezo mais que meu histórico paraense. Sou campineiro e meu Heimat é Belém.

O penhasco foi minha madeleine. Eu passei por ele nas vezes em que fui pra lá, e quando o revi, velho, aquelas casas tristes sobre ele, eu me vi olhando pro rio, me vi nadando no rio-que-é-mar, me vi comendo tapioquinha aos cinco anos de idade, me vi Arthur de Campinas e me vi Arthur de Belém, o que poderia ter sido. Tudo isso ao olhar o penhasco.

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Um pós-escrito: essa sentimentalidade da minha mãe, que como disse é quase inexistente no campo verbal, a humaniza de tal forma que me faz temer o momento em que ela deixará de ser.

Mais um pós-escrito: O filme Le Skylab é um verão de uma família francesa que se reúne. Assim como a memória das férias que eu tive e das que eu não tive. As memórias que minha mãe tem.

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