Dias no Rio

Passei quatro dias no Rio. Quatro noites. Três tardes. Num albergue pequeno e aconchegante chamado Rio hostel. Numa vizinhança que me adequou a sua ideia de bolha. Ideia de que estava seguro, e que tudo era bonito e organizado. Limpo. Divertido. E de fato foi assim, minha viagem. Foram poucos dias em que conheci pessoas novas e principalmente, criei minha impressão sobre um lugar novo (de que eu já tinha ouvido falar muitas vezes). Fui sozinho. Andei por muitos lugares, em sua maioria, sozinho. Nada me segurou, contudo. Mas a cidade me recebeu de braços abertos.

O Rio é lindo. É realmente uma cidade maravilhosa. Não tem como não se impressionar. É uma composição entre cidade grande e moderna, com belezas naturais, recortes de paisagens, importância cultural e histórica… Os prédios, muitos deles, estão bem conservados. E ainda há aquela beleza decadente que certos lugares (especialmente lugares praianos) tem, devido à umidade. O limo nas paredes do porto, nas pedras do Corcovado, nas pedras do Arpoador. Como cidade, funciona, mas não completamente, claro. Ainda há má educação, preconceito, desigualdade… Visíveis. Mas pouco pra quem está na bolha Zona Sul. Quanto ao clima, que calor com frio delicioso! Ventos, areia e névoa. Tudo é monumental, como se cada praça pudesse ser um cartão postal. Aquela lagoa. Aquele calçadão de Copacabana. Aquela gente novinha e baladeira no Leblon. Sentar num café, à tardinha, ver o sol se pondo, sentir o fim do dia. Ir na praia de manhã, começar o dia com bom ânimo. Não tem porque estar com o humor lá em baixo numa cidade dessas.

Lembranças são turvas. Musicalizadas, ficam mais fáceis de clarear. Tenho borrões do que aconteceu, que eu guardo com especial carinho. E eu mais em emocionei quando olhei pra ela do topo do Pão-de-açúcar. Quando vi suas curvas, suas nuances. Cores? Poucas, estava nublado. O sol saía, ela se revelava. Imensa, colorida. Delicada e imponente, como se fosse capaz. Merecedora de tantos apelidos carinhosos, de tantos ícones. Olha, São Paulo, eu te amo. Mas estou lhe avisando que arranjei uma nova amante. E dela não desgrudo mais.

Privilégio do Mar – Carlos Drummond de Andrade

Neste terraço mediocremente confortável,
bebemos cerveja e olhamos o mar.
Sabemos que nada nos acontecerá.

O edifício é sólido e o mundo também.

Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
labutando em mil compartimentos iguais.
Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
e vem cá em cima respirar a brisa do oceano,
o que é privilégio dos edifícios.

O mundo é mesmo de cimento armado.

Certamente, se houvesse um cruzador louco,
fundeado na baía em frente da cidade,
a vida seria incerta... improvável...
Mas nas águas tranqüilas só há marinheiros fiéis.
Como a esquadra é cordial!

Podemos beber honradamente nossa cerveja.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s