Wildness

Quinta-feira passada fui assistir ao filme “Where the wild things are” – na tradução brasileira: “Onde vivem os monstros”.

Where the wild things are

Where the wild things are

Normalmente, os que nos surpreendem regularmente acabam por criar altas expectativas sobre seus feitos, como é o caso de Spike Jonze. Este é o diretor de Adaptação, Quero ser John Malcovitch e de vários videoclipes de artistas como Björk e Fatboy Slim. Trata-se, portanto, de um diretor que comumente cria cenas repletas de surrealismo para adultos disfuncionais e angustiados. O passo que toma em Onde vivem os Monstros é o de retratar a fase inicial dessas sensações, onde ainda há a pureza, ingenuidade e impulsividade: a infância.

A jovialidade transmitida pelo filme e sentida pelos espectadores não é, de longe, a sensação de ser criança. E é aí que a carga emocional se baseia, nessa nostalgia, nessa impossibilidade de ser novamente ingênuo. Por outro lado, quando crianças somos sozinhos e estamos aprendendo a ser em conjunto, de modo que a solidão é um obstáculo a ser superado. Os monstros estão convenientemente isolados numa ilha, e sofrem de uma infelicidade terrível lhes acomete. Max é uma criança que, assume-se, vê a irmã ser levada por amigos, a mãe ser levada pelo trabalho e pela busca de novas companhias, e começa a se sentir sem suas presas. Assim que todos os dentes caírem, não se é mais vampiro e os outros vampiros expulsam quem não o é.

Não é que não falta amor em sua vida, ou afeto. A solidão inerente à infância de alguns está na reflexão e na percepção do mundo em sua volta. O sol irá morrer um dia, e como saber lidar com isso? Como saber lidar com o fato de que o eu-mesmo irá desaparecer. É a construção de uma vida a partir de uma rotina com a passagem pra fase de julgamento. Joga-se sobre os ombros de um garoto toda a questão existencial.

A personalidade dos monstros revela os atores que a vida de Max tem, seja na brigas entre KW e Carol, seja no constante sentimento de estar sendo ignorado de Alexander, o bode, seja nos ataques de cólera de Carol. Ao se tornar o rei, sua função é garantir a ordem, a paz e evitar que a solidão lhes faça sofrer. Entretanto, Max não consegue sustentar a mentira de que é um fantástico rei com poderes, ao que percebem que ele nada mais é que comum, como nota Alexander. Carol nada mais queria que viver em comunidade com os outros monstros, coisa que vê ameaçada quando KW traz seus amigos e todos os adoram. A tensão aumenta, e Carol descobre que Max é mais um garoto comum, ficando irado e arrancando um braço de Douglas. Ao perseguir Max, KW o esconde dentro de si, e o diálogo que se segue parece representar o diálogo entre um casal prestes a se divorciar.

Max decide ir embora, despede-se de todos e finalmente faz com que Carol o perdoe, com uma singeleza adorável que as crianças tem. Esse momento da partida é quando nos damos conta de que não podemos viver eternamente nos mundos que criamos, mas que o regresso destes, apesar de garantirem nostalgias certas pra uns anos que seguem, nos faz adultos.

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