Gógol Ganguli

In O xará – Jhumpa Lahiri:

Uma vez eles tinham ido a Cape Cod, percorrendo esse trecho curvo de terra até não poderem mais seguir de carro. Ele e o pai tinham caminhado até a ponta, cruzando a arrebentação, uma feixa de pedras cinzentas, oblíquas, gigantes, e depois sobre o último trecho estreito de areia, em forma de lua crescente. Sua mãe tinha parado depois de algumas pedras e ficado esperando junto com Sonia, que era pequena demais para ir com eles. “Não vão muito longe”, a mãe advertira, “não vão aonde eu não possa ver vocês.” As pernas dele começaram a doer na metade do caminho, porém o pai seguiu em frente, parando às vezes para dar o braço a Gógol, inclinando levemente o corpo quando ele se apoiava numa pedra. Enquanto ele estava sobre essas pedras, algumas delas espaçadas o suficiente para fazê-los parar e pensar no melhor jeito de alcançar a próxima, a água o cercava de ambos os lados. Era o começo do inverno. Patos nadavam nas poças de maré. As ondas fluíam em duas direções. “Ele é pequeno demais”, a mãe gritou. “Você está ouvindo? Ele é pequeno demais para ir tão longe.” Gógol parou nesse momento, pensando que talvez o pai fosse concordar. “O que você diz?”, o pai perguntou, porém. “Você é pequeno demais? Não, acho que não.”

No fim da arrebentação havia um campo de juncos amarelos à direita, dunas mais além e o oceano atrás de tudo aquilo. Ele estava esperando que o pai fosse voltar, porém eles tinham continuado, pisando na areia. Andaram ao longo da água para a esquerda, seguindo na direção do farol, e passaram por carcaças enferrujadas de barcos , espinhas de peixe grossas feito canos presas a crânios amarelos, uma gaivota morta cujo peito branco coberto de penas tinha manchas recentes de sangue. Eles começaram a recolher pedrinhas pretas desbotadas com listras brancas em volta, enfiando-as nos bolsos, o que os fez pender volumosos dos dois lados. Gógol se lembra das pegadas do pai na areia; por ele mancar, a ponta do seu sapato direito estava sempre virada para fora, o esquerdo apontado para a frente. As sombras deles dois naquele dia eram extraordinariamente delgadas e longas, inclinadas uma em direção à outra, com o sol do fim da tarde às suas costas. Eles pararam para observar uma boia de madeira rachada pintada de azul e branco, no formato de um antigo guarda-sol. A superfície estava envolta por finos fios de algas marrons e incrustrada de cracas. O pai a havia levantado e examinado, apontando para um marisco vivo embaixo dela. Por fim, eles chegaram junto ao farol, exaustos, cercados de água por três lados, azul-claro no porto, azul-celeste mais além. Aquecidos pelo esforço, abriram o zíper de seus casacos. O pai afastou-se para urinar. Ele ouviu o pai gritar – eles tinham deixado a câmera com a mãe dele. “Fizemos este caminho inteiro e não vamos tirar fotos”, ele disse, balançando a cabeça. Ele enfiou a mão no bolso e começou a jogar as pedras listradas na água. “Vamos ter que lembrar, então.” Eles olharam em volta, para a cidade cinzenta e branca que brilhava do outro lado do porto. Então deram início ao caminho de volta, tentando por um tempo não deixar novas pegadas, pisando nas que tinham acabado de fazer. Um vento começou a soprar tão forte que os obrigou a parar de vez em quando.

“Você vai se lembrar desse dia, Gógol?”, o pai perguntou, virando-se para olhar para ele, com as mãos pressionadas feito aquecedores de ouvido, dos dois lados da cabeça.

“Por quanto tempo tenho que lembrar?”

Por cima do vento que subia e descia, ele escutou a risada do pai. Estava ali parado, esperando Gógol alcançá-lo, e estendeu uma das mãos quando Gógol se aproximou.

“Tente lembrar para sempre”, ele disse quando Gógol chegou até ele, e o conduziu lentamente de volta, cruzando a arrebentação, até o lugar onde sua mãe e Sonia estavam esperando. “Lembre que você e eu fizemos esta jornada, que fomos juntos a um lugar de onde não havia mais lugar algum para ir.”

Não houve frase na minha vida que eu mais desejei que não fosse verdade que “nada nos prende”.

Você sente a minha ausência?

Vem
anda comigo
pelo planeta
vamos sumir!
Vem
nada nos prende
ombro no ombro
vamos sumir!

Não importa
que Deus jogue pesadas moedas do céu
vire sacolas de lixo pelo caminho
Se na praça em Moscou
Lênin caminha e procura por ti
sob o luar do oriente
fica na tua
Não importam vitórias
grandes derrotas, bilhões de fuzis
aço e perfume dos mísseis nos teus sapatos
Os chineses e os negros
lotam navios e decoram canções
fumam haxixe na esquina
fica na tua

Vem
anda comigo
pelo planeta
vamos sumir!
Vem
nada nos prende
ombro no ombro
vamos sumir!

Não importa que Lennon arme no inferno a polícia civil
mostre as orelhas de burro aos peruanos
Garibaldi delira
puxa no campo um provável navio
grita no mar farroupilha
fica na tua
Não importa que os vikings queimem as fábricas do cone sul
virem barris de bebidas no Rio da Prata
M’boitatá nos espera
na encruzilhada da noite sem luz
com sua fome encantada
fica na tua

Poetas loucos de cara
Malditos loucos de cara
Ciganos loucos de cara
Ah, vamos sumir!
Parceiros loucos de cara
Inquietos loucos de cara
Pirados loucos de cara
Ah, vamos sumir!

Vem
anda comigo
pelo planeta
vamos sumir!
Vem
nada nos prende
ombro no ombro
vamos sumir!

Se um dia qualquer
tudo pulsar num imenso vazio
coisas saindo do nada
indo pro nada
se mais nada existir
mesmo o que sempre chamamos real
e isso pra ti for tão claro
que nem percebas
se um dia qualquer
ter lucidez for o mesmo que andar
e não notares que andas
o tempo inteiro
É sinal que valeu!
Pega carona no carro que vem
se ele não vem, não importa
fica na tua

Videntes loucos de cara
Descrentes loucos de cara
Pirados loucos de cara
Ah, vamos sumir!
Latinos, deuses, gênios, santos, podres
ateus, imundos e limpos
Moleques loucos de cara
Ah, vamos sumir!
Gigantes, tolos, monges, monstros, sábios
bardos, anjos rudes, cheios do saco
Fantasmas loucos de cara
Ah, vamos sumir!

Vem
anda comigo
pelo planeta
vamos sumir!
Vem
nada nos prende
ombro no ombro
vamos sumir!

Sumir…

Palavras que estavam guardadas

Eu entendo a sua dor.
Lendo aquela história, a senti em meu próprio coração. Senti cada sorriso e cada lágrima. Senti o cheiro do cigarro e gosto de fel. Doeu em mim.

Com certeza infinitamente menos do que doeu em você, mas com tanta empatia que até o ar me faltou.

Eu queria poder estar com você em todos os momentos. Me senti abraçada com o encontro e a despedida, como se eu estivesse no meio de vocês dois. Mas também me senti longe, como de fato estou.

Senti tanta coisa lendo sua história. Tenho tanta coisa para falar também. Tenho meus momentos guardados, meus micro segredos que querem ser divididos. Mas senti sua dor, e vamos focar nela.

O amor, Arthur, é aquela criança que morde e ri. Morde porque acha gostoso, e ri porque não sabe o que é a dor da mordida no outro. Mas é uma linda criança, que queremos ter por perto e vê-la crescer. Amadurecer.

Eu sei que você não vai desacreditar do amor. Você transborda amor.

Mas eu sei também que tem muita tristeza em você, e ela precisa ser trabalhada. Ela não vai passar rápido, ela não vai ser bondosa. Mas podemos fazer com que ela se dilua entre os outros sentimentos para que seja menos percebida, até que ela vire apenas lembrança.

Eu sei que é bastante clichê, mas às vezes encontramos a pessoa certa no momento errado- ou a pessoa errada em um momento oportuno. E nunca saberemos como reagir, como seguir em frente.

Honestamente, não sei qual conselho dar.
Nenhum conselho é forte o suficiente para segurar uma paixão, nem para consolar um coração despedaçado. Não sei mesmo o que dizer.

Por isso a distância é horrível. Porque um abraço e um silêncio compartilhado talvez significasse muito mais do que um e-mail atrasado e com tantos devaneios. Mas não queria deixar de oferecer tudo o que posso a você, e agora posso com palavras.

Choro.
O aeroporto é um lugar triste.

Guardo amores inacabados no meu coração, e sinto todos eles de uma vez agora. Mas guardo, porque é a opção que eu fiz.

Sei que não é a escolha que você fez, muito menos a que gostaria de fazer. Sei também que não estou ajudando, mas o que posso dizer é: guarde esse amor, e você aprenderá a conviver com ele dentro de você.

Estou chegando.

Bárbara Caparroz

Encerramento

Este texto tem o objetivo de retratar de forma mais fiel o possível os acontecimentos da minha vida nas últimas horas. Eu não quero que os detalhes que ainda fervilham na minha mente sejam perdidos com o tempo.

Quarta-feira, 01 de Fevereiro de 2017

Decidi comprar uma passagem para Porto Alegre e visitar o André. Fui na terça-feira pra São Paulo com o Lyan, e dormi na casa da Brufis. A Marina estava lá. Eu não sabia o que esperar da viagem, mas estava bem ansioso. Muito. Eu dormi muito mal, mais ou menos das 2h até as 4h30. Acordei, tomei banho e o Lyan me levou no aeroporto. Meu vôo era as 7h25. Pouco antes de subir no avião eu fiz um vídeo avisando a Gabi e a Bárbara e a Ari e o Lyan que estava partindo. Cheguei no aeroporto, dormi no avião, foi bem rápido. Estava com sono e fome. Eram aproximadamente 9h. Fiz mais um vídeo avisando todo mundo que tinha chegado. Peguei o aerotrem, depois o trem, e desci na estação São Leopoldo. Uma moça me indicou que estava na estação certa. O caminho foi longo, estava ficando cada vez mais ansioso. Saí da estação e fui andando na rua São Caetano. Devia ter pegado a Rua São Paulo. Fui andando em direção ao Shopping, percebi que estava errando, abri o mapa do celular e fui me guiando pro endereço dele, na R. Dom João Becker. O centro é bonitinho, a cidade era bonitinha, eu não tinha andado por ela da última vez. Uma casinha com senhoras idosas, uma igreja do relógio com missas em alemão, paralelepípedos. Estava muito calor, eu estava suando. Cheguei no apartamento dele. Janela fechada. André não recebia mensagens no WhatsApp desde a madrugada. Tentei tocar todos os interfones de número 200. Nada. Mandei mensagens, mas meu celular estava se descarregando. Pedi pra que me respondesse, que era urgente. Disse que estava esperando. Pedi que olhasse na janela. Fiquei aguardando e nada. Mandei as mesmas mensagens via SMS. Joguei pedras na janela. Gritei o nome dele. Isso já passava das 10h, quase onze. Fiquei com receio das pessoas me estranharem ali na rua. Estava muito sol. De repente, recebo um “oi” no WhatsApp. Ele abre a janela. Ele se espanta e sorri. Eu não quero esquecer nunca dessa reação. Ele se espanta e sorri, sorri com os dentes. Estava sem camisa, acho que só de cueca. Fez um gesto de “me espera” e eu fui pra entrada do prédio. Ele demorou muito pra aparecer. Meu coração tava a mil. Ele desceu correndo, vestido, e abriu a porta pra mim. Nos beijamos. Nos abraçamos. Não dissemos nada por alguns minutos. Ele disse: “Tu é um louco, Arthur”. Subimos pro apartamento. Ele reclamou que o apartamento estava sujo e bagunçado. Eu nem liguei. Os gatinhos, Egípcio e Tranquilo estavam lá. Começamos a nos beijar muito forte. Muito. Tirei sua camisa. Nos beijamos mais. Ficamos nus e fomos pra cama. Acho que nunca passei tanto tempo beijando alguém. Os lábios do André são muito carnudos e gostosos de beijar. Atingi o êxtase. Mas estava muito cansado, muito. Estava tendo dificuldades de manter meu pau duro. Eu estava tremendo de nervoso. Lembrei que a última vez que o visitei eu tremia de frio e dessa vez eu tremia de nervoso. Estava viajando e andando de avião, de trem e a pé desde as 5 da manhã. Começamos a conversar. Eu disse que estava lá, que estava lá de verdade. Nem eu mesmo estava acreditando nisso. Ele estava em choque. Eu disse que adorei a reação dele. Pedi desculpas por não saber que no dia seguinte seria feriado. Fiquei apreensivo com a possibilidade do Pablo ir pra lá. Perguntei se ele ia. Ele ficou apreensivo também, por ter convidado o Pablo pra ir pra lá por conta do feriado. Mas aí se lembrou que o Pablo trabalharia durante o feriado e folgaria na sexta. Ele ia ajudar o Carlos a pintar o apartamento. Eram esses seus planos. Concordamos em ir almoçar (porque eu estava morto de fome) e depois, quando fosse ajudar o Carlos com os trabalhos, eu dormiria um pouco. Fumei um cigarro, ele me acompanhou. Ele não tinha cigarros ficou fumando os meus. Perguntei se poderíamos ir pra Porto Alegre a noite, que eu queria dar uma volta, tirar umas fotos, jantar no Atelier das Massas. Ele disse que ia pensar. O Carlos não havia respondido as mensagens, então fomos almoçar mesmo assim. Andamos pouco, queria almoçar num lugar que tivesse ar condicionado. Passamos na frente de um prédio que chama Perficere. Ironizamos o fato de ser chic prédios com nomes em italiano ou nomes bregas, e com isso é uma coisa muito São Paulo.  Spazzio de la Inspirazione. Fenícia. Fomos na churrascaria Modelo. Era um buffet à vontade, por 25 reais. Comi pouco, o André comeu muito. Na hora de escolher, pensei em ver se tinha manga, manga é tão refrescante. Lembrei da Ari. Ele come muito, não sei como não é gordo. Descobri que eles chamam fraldinha de “vazio”. Eu adoro comer cenouras frias e beterrabas frias de salada. Comentei isso e ele disse que também gostava. O vazio estava delicioso. Pedimos uma coca de um litro, e veio uma coca de vidro de um litro. Não tem essa coca em Campinas. Na televisão estava passando uma notícia horrenda de um homem que invadiu um casamento e atirou nos padrinhos. O André comentou algo sobre a minha viagem não ter o propósito de estremecer as coisas entre ele o Pablo. Perguntei sobre como ele tinha essa certeza (porque eu pensava em parte que era esse meu propósito). Ele disse algo que me fez perceber que ele não tinha dito isso, algo que não lembro exatamente o que era. Ele disse que não achava uma boa ideia ir no Atelier das Massas, que via aquilo como um jantar romântico. Eu queria um jantar romântico. Terminamos o almoço e voltamos pro apartamento. Deitamos, eu tirei a camisa, me senti muito a vontade. Avisei algumas pessoas que tinha chegado (não lembro quais). Deitamos na cama, ficamos lá um pouco, nos beijamos mais e eu estava de novo muito cansado. Ele me mostrou o enfeite de sua vó, uma coisa meio brega porém incrível, com papéis e bonequinhas e florzinhas coladas animaizinhos recortados. Me lembrou as coisas da casa da minha vó. Relembrei-o das cartas do meu pai, que minha mãe trouxe que salvou do incêndio. Lembrei que quando contei disso pra ele, ele estava esquisito e um mau conversador (na segunda-feira). Contei que receava que as coisas ficassem estranhas entre nós, visto que a minha viagem era iminente, e que só pensava em mandar ele parar de falar coisas sobre o Pablo e sobre a dificuldade da nossa relação. Pedi pra dormir um pouco. Mas não queria que ele me largasse nunca. Ele disse que iria ao Carlos. Vestiu uma bermuda, as pernas do André não são muito grossas. Minha mãe estava preocupada, então respondi a mensagem dela e de alguns mais. Deitei e dormi. Babei muito e provavelmente ronquei. Dormi nu. Acordei algumas horas depois, um pouco perdido, sem saber onde estava ou que horas eram. Acho que eram umas 17h30. Dei uma espiada pela casa, havia um porta retrato com uma foto dele e do Pablo, em cima de uma pilha de algumas fotos, na estante. Coloquei a única foto que não tinha o Pablo, que só tinha ele e os gatos, na frente da foto do porta retrato. Vi alguns livros. Vi que ele tinha deixado seu patuá na mesa de cabeceira. Vi que o livro que eu dei de presente pra ele, A Máquina de Fazer Espanhóis, estava na mesa de cabeceira e isso me deu um calor no coração. E um livro que ele tinha falado uns dias antes, algo sobre colonização da América, e um do Rilke. Pensei em mais tarde escrever uma dedicatória no livro que eu dei de presente (uma vez que ele foi enviado por correio direto da loja). Ele chegou. Estava suado, tirou a camisa e se jogou por cima de mim. Eu acariciei os cabelos dele. O cabelo dele é bem liso e grosso. Eu também ficava acariciando a barba dele, contando os pelos brancos. Ele tinha um pelo do lado esquerdo que era bem saliente, mas eu não disse isso pra ele. Só arrumava. O cheiro dele era incrível. Um cheiro acre de suor, que me deixava de alguma forma extasiado. Deitou, ficamos rolando na cama, conversando, especificamente não me lembro do que, nessa hora. Sei que falamos um pouco dos livros que ele estava lendo. Ele disse que leu a parte mais bonita do livro do Valter Hugo Mãe. Fiquei feliz de ele estar gostando daquele livro. Mais uma vez estávamos nus. Tirei algumas fotos de nós dois nus na cama. Não ficaram muito boas. Ele me disse que contou pro Carlos que eu estava lá. Disse que percebeu que ele tinha um amante, apesar de todos os esforços racionais pra que situações como essa nunca acontecessem na sua vida. Que procurava não trair o Pablo, mas que o estava traindo. E que decidiu não contar o que estava acontecendo a ele tão cedo. Eu fiquei o elogiando e disse que ainda estava meio nervoso por ter ido pra lá mas que ele valia a pena. Ele me disse que não tem muitas pessoas que fazem isso por ele, que eu exagero na minha visão de como ele é incrível, que não tem uma fila de caras tentando ficar com ele. Disse que isso dizia mais sobre mim do que sobre ele, que era um comportamento obsessivo meu. Ele me disse que eu era intenso, e eu disse que não era nada intenso, que eu era uma pessoa bastante comedida. E que ele valia a pena a intensidade. Tentei contra-argumentar, não lembro se estou misturando as conversas…  Perguntei da fita cassete que ele tinha do filme Laranja Mecânica, e se ele ainda tinha VHS pra assisti-la. Ele disse que não, mas me contou a história da fita, de como um amigo querido deu pra ele e que ele não conseguia jogar fora. Perguntei da edição dele de Teeteto do Platão, ele disse que era uma impressão do domínio público. Tomávamos muita água, estava quente e a água era importante. Ele tinha um pote de água bem kitsch, em forma de abacaxi. Disse isso pra ele. Estávamos pelados e deitados e eu não queria que ele me largasse nunca. Eu disse que estava com uma música na cabeça, mas não revelei que era Loucos de Cara do Vitor Ramil. Já era tarde, então ele foi tomar banho e eu me fui vestir pra sairmos. Estava com uma camisa que ele disse que gosta. Eu disse que tinha escolhido aquela camisa justamente porque sabia que ele gostava. Enquanto ele tomava banho, pediu pra eu colocar uma música. Coloquei Pet Shop Boys. Eu estava alegre. Saímos pra jantar, fomos andando pela Av Independência, passamos pela Sociedade Orpheu. Ele me explicou o que era uma Sociedade. Um clube. Andamos até um barzinho que ele me avisou que era bem hétero, hétero demais. Sentamos nele, as luzinhas eram um charme. Pedimos uma porção de filé com fritas. Pedi que trouxessem pão, mas me trouxeram torradas. Fiquei indignado. Ele também reclamou que precisavam do RG pra fazer um cadastro na comanda. Eu entreguei meu RG. Quando o garçom foi embora, ele disse que não teria entregado o RG, que achava aquilo uma palhaçada. Achei exagerado esse comportamento dele. Acho que já eram umas 22h. O tempo tava passando muito rápido, e ter dormido a tarde comeu muito do pouco tempo que eu tinha. Ele disse que o restaurante da frente era uma parrilla uruguaia. Ele fala “parrixa”, como um uruguaio. Ali perto tinha um restaurante chamado Tempero Baiano, e estava completamente vazio. Ele disse que não era muito bom, e que essa era provavelmente a causa. Disse, chocado, que quando foi a comida não era apimentada e o molho de pimenta estava amargo, provavelmente por ser congelado. A comida chegou, e estava deliciosa, o filé estava delicioso. Ele comentou que era filé mesmo, não contrafilé amaciado. O molho era ok, pra mim era ok, mas o André reclamou que era só maionese com ketchup Oderich. Falei da história que a Michele me contou que a Unilever foi na Oderich verificar se eles podiam suplementar a produção de ketchup deles. Falei, erroneamente, que o ketchup da Unilever era Arisco, quando na verdade é Hellman’s. Ele sabia que a Unilever tem muitas marcas. Começamos a falar da produção industrial do Rio Grande do Sul, de como eles não conseguem se projetar pro resto do país e que a pecuária gaúcha está em declínio. Falamos um pouco sobre a logística do estado, como ele é distante do resto do país, como a Editora Artmed que ele trabalhava não conseguia alcançar o resto do país tão bem. Como suas colegas não conseguiram vingar sua marca por conta do frete alto. Falamos de como o Rio Grande do Sul está mudando, esse declínio todo por conta de sua crise, e como estão aparecendo conservadores e reacionários. Começamos a falar do Golpe porque falávamos de consumo, erros do governo Lula, erros da esquerda de um modo geral e concordávamos em praticamente tudo. Detalhei um pouco da minha perspectiva sobre esses assuntos e me parece que o surpreendi em alguns momentos. Não que o surpreendi, mas que o fiz repensar algo sobre outros ângulos. Nesse momento pensei em como é gostoso conversar com ele, como a conversa flui de uma maneira tão natural e como ela nos edifica, já que não estamos totalmente em consenso, mas que ele tem como organizar as linhas de argumentação pondo em xeque muito do que ele acredita e do que está sendo discutido. Ele é incrível, não sei quem conversa de maneira tão hábil quanto ele. Não sei como o assunto foi mudando pra Educação Especial (talvez via trabalho de base). Acho que lembrei: eu falei que a esquerda precisa de trabalho de base e que eu sou muito grato de fazer parte de um projeto como o cursinho em que é possível levar esclarecimento e senso crítico a alunos que antes nem sonhavam em fazer faculdade. Ele falou de educação especial, e como está farto de o pós-modernismo ficar dizendo que tudo é tudo e nada é tudo e tudo é nada e nada é nada (ou algo assim). Disse que não gosta quando alunos da sociais chegam reclamando que a educação precisa ser renovada, que precisa se adequar aos alunos especiais e que todos os alunos são cristais de gelo e únicos. Ele disse que na verdade o que as pessoas da área de educação especial querem pelo menos inclusão! Em primeiro lugar, levar essas pessoas pra escola, que nem isso elas vão. Lembrei-o de que é preciso sim repensar o currículo (fora do contexto de educação especial) e dei exemplos de como cegos imaginam a ciência e a matemática, como é possível pensar em n-dimensões sem vê-las e notei que ele se surpreendeu. Ele disse também que precisamos de parar de criar deficiências: quando se faz uma escada, cria-se uma deficiência, pois exclui quem não consegue subir a escada. Passamos a falar então de como a visibilidade é importante, e eu fiz um paralelo com a invisibilidade de pessoas trans, se é difícil pra pessoas LGB como nós, imagina pra pessoas T. Ele contou uma história de um aluno homofóbico, eu contei a história de um aluno Bolsominion. A conversa estava rendendo muito, e eu estava ficando cada vez mais feliz por estar ali naquele momento. Eu o lembrei de que uma vez estávamos tendo uma conversa sobre sei lá que assunto, e que o que eu mais queria era sentar num café e fumar um cigarro e conversar sobre aquilo. Ele só sorriu. Na hora de pagar, meu cartão não passou em três máquinas, fiquei preocupadíssimo, ele disse que só estava com tanto no bolso e eu mais tanto. Entrei no banco pelo celular e vi o saldo e estava normal. Questionei se seria o uso no Rio Grande do Sul, mas no fim pagamos e deu certo. Decidimos não tomar sorvete na sorveteria gourmet e nem pegar um Uber pra voltar pra casa, e sim ir andando. Tiramos umas fotos nossas com as luzinhas de fundo, mas ficaram horríveis. Fomos andando e aí de repente um cara passa por nós de carro e grita “gostoso!” pra ele. Eu reclamei e disse: tá vendo como existe uma fila de caras que te acha lindo. Ficamos os dois embasbacados por esse acontecimento. Chegamos no apartamento, prontamente fiquei só de cueca. Estranhei como eu conseguia fazer isso de forma tão natural. Pensei se é porque eu queria estar o mais exposto o possível lá pra ele. O Pablo havia ligado, mas o celular estava no silencioso, e isso o preocupou. Ele respondeu as mensagens, mas o Pablo já estava dormindo. Deitamos e começamos a conversar. Beijos em todo momento. Ele estava com o hálito de cerveja, gelado, delicioso. Eu lembrei que disse pra ele que não gosto muito de tomar cerveja, que prefiro outros tipos de álcool. Mas o hálito dele era maravilhoso. Eu estava suado, ele disse que eu estava como ele estava mais cedo. Naquele momento eu já estava começando a sentir a tristeza. Meu coração era inquieto. Foi quando eu percebi o que estava deixando meu pau não tão duro quanto eu queria. Eu finalmente me dei conta do motivo da minha viagem. Eu percebi que eu tinha ido pra lá pra terminar as coisas. Eu percebi que teria que dizer adeus. Que ele não seria forte o suficiente pra terminar as coisas. Transmiti esse sentimento a ele. Chamei ele de covarde. Me arrependi e disse que chamei ele de covarde não no sentido ruim da palavra. Ele me lembrou que não existe um sentido bom pra palavra covarde. Percebi que eu me arrependia toda vez que cometia algo que poderia ser mal interpretado, mas percebi que tinha sido sincero. Eu falei pra ele que eu não era obcecado por ele. Eu disse que ele me tocava em pontos que as pessoas não costumavam me tocar, que via nele coisas que me faziam acha-lo uma pessoa incrível, e que a sua mera existência já era algo que me maravilhava. Comecei a chorar. Eu estava olhando pro teto, o teto era bem branco com ranhuras muito sutis e eu ficava tentando acompanha-las com os meus olhos. Mas eu tava chorando. Eu disse a ele que não tenho raiva de Deus por estar passando por toda essa situação. Listei os caras por quem me apaixonei, pra ter notado que eu que, em termos práticos, terminei com todos. Alê, Murilo, Arieh, Lucas. Eu estava muito triste. Completamente triste. Minha voz estava engrolada e eu percebi que não ia conseguir lembrar de tudo quando tudo acabasse. Isso me entristeceu mais ainda. O André percebeu a profundidade da minha dor e começou a chorar também. Ele chorava com os braços na frente dos olhos, apertando meus braços contra ele, e o clima não podia ser mais deprimente. Naquele momento não havia mais carícias, só havia dor, só havia a dor de não conseguirmos realizar o que eu queria. A minha existência como um possível amor pro André estava fadada ao fracasso, já que ele ama o Pablo e que os problemas que ele haveria de ter com o Pablo passariam, no mínimo, por tentativas de solução. Se, em algum futuro, ele terminasse com o Pablo, ele me disse que tinha pensado em nem me dizer. Que ia esperar muito tempo pra processar o luto, e sabia que não poderia me deixar esperando por isso. E isso pode nem nunca acontecer. Naquele momento ele me disse que ele já aconteceu de aparecer pessoas que poderiam querer algo mais que apenas sexo com ele. E que essas pessoas foram afastadas. Mas que de alguma forma, eu consegui desarmá-lo. Que eu consegui conquistar um espaço no coração dele que não estava sendo ocupado pelo Pablo. E isso não é ruim pra situação dele com o Pablo, é só que ele tem um coração com esse espaço. Eu disse que queria ser uma hera no coração dele, que queria dominar todo o coração e disse também que minha raiz sugaria a fonte de energia do Pablo no coração dele. Me senti deplorável por querer ser isso. Ele só comentou que seria uma boa tatuagem, um coração com uma hera. Ele me contou que desejava sair de São Leopoldo, e que apareceu alguém que poderia fazer isso (eu) Choramos muito nessa noite. Ele disse que apesar de nos conhecermos por apenas cinco meses,  a tristeza daquele momento fazia parecer que nos conhecíamos há anos. Beijei os olhos deles pra sentir o gosto das lágrimas. Ele me contou a história do César, um cara que apareceu depois do Anderson, o primeiro namorado dele. Que esse cara era como eu, que era um cara completamente compatível, que havia uma tensão excelente entre os dois, e como o César era uma pessoa que representava “o que poderia ter sido”. Me contou que quando terminou com o Anderson, procurou o César, mas ele tinha seguido com a vida dele, estava namorando outro alguém. E que foi muito ruim esse namoro, e que o César se matou. A conversa foi começando a se resolver, a tristeza foi começando a ficar de lado e dizíamos que devíamos aproveitar o tempo pouco que tínhamos juntos pra deixar pra resolver isso depois. Senti que ele disse que eu fui perspicaz em perceber que de tão racionais que somos, só conseguiríamos mesmo aproveitar a situação se tirássemos essa questão da mesa, desatássemos esse nó nas nossas gargantas. Pedi pra por uma música, pra melhorar o astral, e coloquei Space Oddity. Logo no começo das nossas conversas, eu inventei um código pra saber se ele estava com o Pablo. Eu falava: “Ground Control to Major Tom”. Ele tinha que me responder “This is Major Tom to Ground Control”. Ele nunca acertava. Quando começou a tocar Space Oddity, perguntei se ele sabia sobre o que falava a música. Ele disse que não, mas me revelou que queria ter comprado uma camiseta do David Bowie de aniversário, mas todas eram muito caras ou feias. Eu nem liguei que ele não me deu presente de aniversário, fiquei feliz de ele ter me contado isso. Expliquei a letra da música, disse que agora eu era o Major Tom, que eu que estava adrift, à deriva, dando adeus pro Ground Control. Lembrei que me toca bastante quando na música ele fala “Tell my wife I love her very much” e alguém responde “she knows!”. Quando acabou essa música, coloquei True Love Waits, outra música que eu amo e que fez parte da minha história com ele, pois uma vez conversamos sobre ela. Ele nem percebeu, acho que nem lembrou. A próxima música seria Happy Together do The Turtles. Ele percebeu o que eu tava fazendo, colocando músicas que eram importantes pra mim com ele. Sempre quis, mas nunca cantei essa música pra ele. Seria um lindo gesto romântico, clichê e brega. Eu queria ser clichê e brega pra ele. Ele falou do filme que toca essa música, perguntou se eu tinha visto. Eu disse que não, e ele falou que essa música toca no final num tom completamente diferente do tom que tem as histórias do filme, todas trágicas. Disse pro André que eu estar apaixonado por ele é uma tragédia. Ele disse que tragédia foi a gente ter se conhecido. Sentamos pra fumar um cigarro, e pus a famigerada música do Vitor Ramil, Loucos de Cara. Eu amei profundamente quando ele me disse que eu era um louco de cara. Na época, ele tinha me mostrado essa música linda, e eu fiquei pensando em como o André é esse cara incrível que se sente tocado por uma puta duma música como aquela. E como foi difícil pra mim lembrar que ele é esse cara incrível, naquela época. Quando tocou a música, ficamos ouvindo sem falar. Eu quis chorar um pouco, mas não chorei. Ele fez um chá gelado muito aguado, adoçado com açúcar mascavo, na jarra em formato de abacaxi. Tomamos, e já eram quatro horas. Deitamos mais um pouco na cama, voltamos a nos beijar, tentei tirar uma foto mas ficaram horríveis. Falei que na época do ano novo eu postei a música I Wish I knew, do Chet Baker, que tem a frase “Should I keep dreaming on, or should I just forget you? What shall I do, I wish I knew”. Ele disse que eu exploro muito a ideia de ilustrar a minha vida com músicas. Ele disse que ilustra a dele com livros. Fez uma pilha de uns quatro livros que tirou da estante pra me mostrar. Começou a cantarolar “Evry time we say goodbye”. Eu disse que o Chet Baker tinha uma versão dessa música. Coloquei pra tocar, mas quem estava cantando era a Ella Fitzgerald. Ele amou, pois ele ama ela e a música. Contei que eu adoro Chet Baker, que ele é um pobrezinho sofredor. Disse que vai procurar ouvir mais do Chet Baker. Voltou pra cama, pelado, com os livros. Começou a falar de Balzac e da “trilogia” dentro da Comédia Humana sobre um Vautrin. Contei que já vi uma peça com algo que me lembrava o que ele estava me contando. Leu um trecho pra mim de uma carta, interessantíssimo. Eu achava que Balzac era mais chato. Quis ler toda a Comédia Humana pra impressioná-lo. Perguntei se ele vai ler toda a comédia humana, que vai demorar muito pra ler os 14 livros. Eu achava que eram 14, ele me corrigiu dizendo que são 86! Eu sabia que eram muitos, mas não tantos. Ele falou que quando ficar velho vai ler um deles por mês. Pulou pra um livro do Rilke, que tinha comentado mais cedo de outro livro do Rilke (que eu não entendi quase nada do que falava porque estava com muito sono – além de ser difícil). Começou a ler Cartas a um Jovem Poeta. Fiquei pasmo com a simplicidade e clareza do texto. Fiquei muito interessado, e os temas tratados eram muito delicados. Falamos sobre o indizível. Disse que isso me remetia a Clarice, ou a James Joyce no Retrato de um Artista quando jovem. Falei sobre quando o Filipe estava tentando encontrar uma linha de expressão que não violasse lugar de fala, que li o retrato junto com ele, pra que encontrássemos uma iluminação. Nesse momento percebi que eu não sou tão infeliz nas minhas leituras, mas revelei a ele esse meu medo: o medo de que eu só estou lendo um livro e não as entrelinhas, e não absorvendo com a devida profundidade, e que ele como filósofo faz isso de maneira elegante e acertada. Ele me disse que isso era bobagem, mas eu continuo acreditando nisso. Contou que o trabalho dele é ler. Ele continuou lendo o livro, e eu queria ler cada vez mais. Eu queria que ele ficasse lendo pra mim pra sempre. Pelo menos até eu dormir. Voltamos a fumar mais cigarros (estávamos fumando muito!) e aí os ônibus começaram a passar. Ele contou historinhas sobre seus gatos e sobre o navio de Garibaldi que foi arrastado pelo campo pra poder vencer a batalha. Falei sobre Topologia e Lacan, Eu disse que estava com um gosto de fel na boca. A tristeza, o choro, o cigarro, acho que tudo isso contribuiu e fui escovar os dentes. Ambos sentimos que quando os ônibus começam a passar, já está bem mais tarde do que deveria, e que já devíamos estar dormindo. Deitamos, e nos beijamos mais um pouco. Conseguimos rir de uma tragédia hipotética em que ficamos juntos, mas nos separamos no final. Dormimos abraçados. Eu nem gosto de dormir abraçado, mas dormimos abraçados. Por nenhum momento passou pela minha cabeça que estava ruim ficar abraçado. Eu só queria ficar abraçado.

Quinta-feira, 02 de Fevereiro de 2017

Acordei por volta de dez horas. Olhei que meu vôo era 17h52 não 17h25. O da ida que era 7h25. Percebi, então, que tínhamos ganhado mais uma hora pro dia. Dormi mais um pouco e acordei onze horas. Acordei e imediatamente beijei a boca dele. Ele disse que teria mau hálito, de manhã, mas eu nem percebi. Nos beijamos. Começamos a transar. Finalmente um sexo à altura do que eu estava planejando. Não que os outros tenham sido ruins, mas esse, após o descanso e após a conversa, foi o melhor de todos. Chorei após o gozo. Não sei se ele percebeu, mas eu chorei. Nunca tinha chorado após o gozo. Decidimos nossos planos, tomei banho ouvindo músicas da Sandy e ele arrumou um pouco as coisas pois não voltaria pra casa até o fim de semana. Passeei novamente pelos livros da estante dele, comentei alguns, enquanto ele tomava banho. Escrevi um recado pra ele, deixando dentro do livro do Valter Hugo Mãe. Queria devolver aquela linda mensagem em que dizia que ele era (de alguma forma) meu. Deixei um pedido pra que ele nunca se esquecesse do (de alguma forma) teu Arthur. Pegamos um Uber até a estação de trem, e eu ficava apreensivo de pegar na mão dele, ou de beijá-lo em público. Fiz piadas com paparazzi que iam nos denunciar ao Pablo. Sentamos no trem, eu repousava minha mão de leve na perna dele. Contei pra ele que quando estava deprimido, meu diário ficou vazio, e que o período vazio no meu diário me deixa transtornado. Ele me contou da mãe dele, que ela é triste e melancólica de um modo geral. Contou uma história de quando eram crianças e pobres e foram ver os trapalhões, que sua mãe reclamou que era ruim ser pobre. Contou essa história rindo, de maneira muito engraçada, e eu ri também, sem pesar. Ele percebeu que seu celular estava sem bateria e começou a se preocupar. Fechou a cara, ficou ansioso, pensando que as pessoas poderiam estar procurando por ele e estavam mesmo. O Carlos, o Gui, o Pablo, todos procuravam por ele. Nesse momento percebi a dedicação dele a mim, pra que eu tivesse o máximo dele que pudesse. Acho que isso é porque nos daríamos adeus em breve. Fiquei com medo de ficar encostando nele, ou de deitar cabeça no ombro dele dentro do trem, mas fiz isso mesmo assim. Não me importava mais o que as pessoas pensavam. Mas eu estava triste. Falamos do nome Conrado, que ele não gosta. Do nome Arthur, que significa grande urso. Do nome André, que significa viril. Lembrei do Vir, Heroicus, Sublimus, mas não comentei. Saímos do trem, e fomos andando em direção à Casa Mário Quintana. Percebi que o dia estava bonito e ensolarado. Passamos por um lugar que eu já tinha visto fotos que ele tinha tirado, durante protestos Fora Temer do ano passado. Eu olhava a arquitetura do lugar e comentei que parecia um pouco com o centro de São Paulo. Eu notei que quando da primeira vez que fui pra Porto Alegre, meu humor era bom e o da cidade era ruim, e que agora isso tinha se invertido. Há um paralelo entre o início e o fim. Chegando na Mário Quintana eu fiquei novamente vislumbrado pela beleza daquele lugar. Subimos até o sexto andar, e conversamos na janela, sobre como deveria ser legal ter morado lá quando era um hotel. Eu perguntei se o jardim estava aberto, ele disse que achava que sim. Descemos um andar até o terraço que tinha o jardim e eu disse que estava fechado quando fui lá na primeira vez, por conta da chuva. Sentamos e naquele momento minha tristeza era plena. Cada vez mais o fim era iminente. Eu revelei a ele que eu estava lá com ele, que conversávamos naturalmente, mas a tristeza me era plena, que era o único sentimento possível. Ele disse que eu tenho algo importante, que é a capacidade de me permitir processar o sofrimento. Que eu não procuro fugir ou esconder essa situação, que a tristeza me é cara. Nos beijamos no jardim. Foi o momento mais solene desses dias, mas provavelmente o mais bonito. Apontou Gingko Bilobas e eu fiquei admirando as plantas dentro das banheiras que eram do hotel. Ele tirou o Cartas a um Jovem Poeta e disse que ia me dar. Eu já sabia que ele ia me dar e aceitei. Rabiscou alguma coisa na primeira folha e me pediu que lesse só depois. Ele deixou o celular carregando, e quando foi tirar pra irmos embora, pedi pra que tirássemos uma foto. Pedi pra que ele me desse um beijo, enquanto eu tirava a foto. Tiramos fotos lindas nesse momento. Finalmente eu tinha a foto que desejava, além das memórias que eu desejava. Almoçamos num boteco, pedimos um À la minuta. Não consegui comer metade. Ele comeu todo o dele e a metade do meu que eu não quis. Conversamos sobre a Gabi e o Fernando e a vida dela. Ele me deu os bons conselhos sobre isso que eu costumo dar, e repetiu que ela deve fazer terapia. Conversamos também sobre generais da ditadura e nomes de ruas, e sobre a vinda do Raul pra Porto Alegre. O almoço estava em um clima quase insuportável de despedida, e aí decidimos ir pro aeroporto. Ele ficou respondendo mensagens do Pablo e do Carlos, mas logo voltou a me dar atenção. Estava preocupado com as pessoas que estavam tentando entrar em contato com ele. Andamos em direção ao trem e dessa vez passamos pela Esquina Democrática, pelo Mercado e por um lugar que notei que parece o centro do Rio de Janeiro: sujo, com prédios lindos e imensos, e a iminência do “mar” após o porto. Pegamos o trem, estava muito calor. Conversamos sobre o feriado de Navegantes e sobre um amigo dele que ele encontraria depois. Conversamos também sobre a vida acadêmica e tirar boas notas. Concordamos que sempre chega uma hora na nossa vida que percebemos que vai sempre haver pessoas com melhor desempenho que nós. Ele perguntou do Jean, e eu expliquei a situação dele. Entramos no aeroporto pra eu fazer o checkin e voltamos pra fora pra fumar um cigarro. O clima tava ficando cada vez mais triste. Estava nublado, agora. Quando estávamos la fora, comentei que eu nunca tinha me deixado afetar tanto no sexo por causa do emocional. Ele falou um pouco da necessidade de desconstruição dessa virilidade necessária. Ele disse que contaria pro Gui nossa história, que ele acharia ela bonita. Pro Gui e pro Carlos, pro Pablo ainda não sabia quando nem se.  Ele reiterou que isso foi um gesto romântico grandioso e ele se sentia lisonjeado pela grandeza do gesto. Eu senti orgulho de mim mesmo. Porque eu jamais pensaria em fazer isso antes, eu me senti orgulhoso de ter enfrentado o medo e juntado força pra poder valer minha palavra e minha honestidade com meus sentimentos. Ele me beijou. Entramos pra nos despedir. Foi um momento muito difícil. Ele me abraçou, e parecia que tava tudo escuro, que tudo estava preto em volta. Éramos só nós, parecia que não havia mais ninguém. Ele revelou que até o momento não sabia o que estava perdendo. Chorou. Eu chorei. O abraço foi demoradíssimo. Eu não queria soltar nunca. Podem ter sido 3 segundos, mas pra mim durou uma eternidade. Eu fui indo em direção a entrada, pensei em nem olhar pra trás. Mas não consegui, olhei pra trás e perdi minha Eurídice. Fiz um aceno com a mão e entrei chorando na fila da polícia. Percebi que agora era a realidade, e estava indo embora mesmo. Liguei pra Gabi pra avisar que não quereria sair em São Paulo. Desabei. Contei alguns detalhes de tudo que estava acontecendo, de forma a conseguir imortalizar os detalhes. Disse que queria que alguém escrevesse essa história, não quero esquecer nenhum dos menores detalhes. Ela me recomendou que escrevesse enquanto eles ainda estava frescos. Estava chorando copiosamente num saguão de aeroporto lotado. Abri o livro do Rilke que o André me deu e nele estava escrito “Para aquele que foi meu, tanto quanto possível, que eu amei na medida do possível e que participou comigo da descoberta da dor pelo que não pode ser”. Dormi no avião. Cheguei em São Paulo mais calmo, sem muito choro. Entrei no ônibus vindo pra Campinas e chorei novamente. Cheguei em casa e meus pais nem desconfiam de tudo isso. Meu quarto está igual, está tudo igual, eu não sabia o que fazer. Eu só queria falar com o André. Tentei me distrair mas acabei pedido pra Gabi falar comigo. Ela falou, ela é um anjo. Chorei novamente. Não sei se vou chorar mais amanhã. Decidi então começar a escrever todos os fatos da história recente e aqui estou. Sobre os detalhes, sei que já esqueci de vários, mas tentei ao máximo reconstruir tudo o que passei nesses dois últimos dias.

WP_20170202_14_41_00_Pro.jpg

madrugada

me veio agora um impulso de escrever algo mas não sei nem se vai valer a pena deixar esse monte de palavra sair da minha cabeça e passar pra forma escrita
eu tava na janela fumando um cigarro e olhando a chuva cair devagarzinho. choveu muito hoje agora à noite, muito mesmo, de fazer um riozinho de correnteza embaixo das árvores que ficam aqui atrás
hoje mais cedo montei um tabuleiro de xadrez meu, antigo, de peças de vidro muito bonitas, que eu encontrei no fundo do meu armário. a penumbra fazia a sombra das peças ficarem bonitas
não tá calor mas o ventilador tá ligado fazendo um agradável ruído de fundo que me faz esquecer do zumbido que eu tenho no meu ouvido esquerdo que tem quase nada de audição
eu tava lendo o trecho de um livro que eu tenho aqui que retrata as cenas da infância de um menino irlandês, li em torno de cinquenta páginas e decidi parar por hoje
o último livro que li que me fez sentir algo verdadeiramente profundo foi por quem os sinos dobram? do Hemingway
as leituras subsequentes foram irritantemente leves
a madrugada é a parte do dia em que eu estou mais acordado ultimamente já que vou dormir tarde e acordo tarde
e é o período que eu falo com você, besteiras da vida quotidiana, em que eu conto do meu dia mas que eu quero mesmo é ouvir você me ensinar algum termo complicado de filosofia ou de psicanálise que vai me destacar do resto mundano das pessoas que não o conhecem
ou que eu fico lendo pedaços de partituras acompanhando a música que elas representam
eu não me canso de ser esse homem mundano tentando se descolar da banalidade, mesmo aparentemente reconhecendo o valor da banalidade
amanhã vai ser mais uma terça-feira e eu vou precisar reengrenar no meu ritmo que me garante grandes conquistas acadêmicas. estou estagnado, pra variar. não porque estou empacado, mas porque não estou sendo imediatamente cobrado.
mas o que eu queria mesmo era estar deitado com você (que nesse momento está deitado e dormindo) e eu não contenho esse sentimento
eu não consigo conter o sentimento de que eu preciso da sua presença na minha vida, da sua presença na minha vida
eu me agarro nele como se fosse um motivo de aniquilar todo esse sentimento de inadequação e falta de sentido no quotidiano e na banalidade
será que você é o bode expiatório desse sentimento? por que que com você eu me esqueço que esse sentimento existe?
nada disso é literatura profundamente tocante nem é reflexivo o suficiente pra entrar no grande hall de drama humano da existência
é ridículo é patético pensar que eu almeje atingir isso de alguma forma
eu queria que o café preto e o pão com manteiga mais simples que você toma e come fossem compartilhados comigo de uma maneira que isso me acalentasse
eu queria que a minha relação com você saísse dessa abstração absurda
eu queria que a gente pudesse viajar e conhecer um lugar novo que só a gente ia conhecer e só a gente ia ter essa memória desse lugar de como ele foi importante e legal pra gente
pra mim já chega de só ter aquelas duas únicas vezes em que nós nos encontramos
eu queria ser pra você o que você é pra mim e que isso bastasse pra podermos deitar a cabeça na hora de dormir e agradecer pelo que temos e o que tivemos e o que teremos
eu queria também não ser alérgico a gatos
não sei se eu vou te reencontrar pra gente criar novas memórias juntos
se você vai continuar sendo essa abstração absurda, eu vou continuar me apaixonando cada vez mais e mais por você, mesmo distante, mesmo ausente nos finais de semana e nos feriados e nos anos-novos e nos natais
tô cansando de dizer que você é esse cara incrível que você é, que me conquistou e me conquista e me faz sentir falta e me faz sentir vontade
mesmo com o futuro que me espera, cada vez mais distante da palpabilidade de ter você na minha vida, o que eu mais queria era ter você

Carta

Ari,

 

Se tem algo que eu faço ao seu lado é brincar de viver. Você é essa pessoa que me lembra que se uma lágrima escorre, ela vem porque o mundo te disse não, mas que existiu um bom motivo pra isso. Que se os últimos meses, talvez os últimos anos, foram difíceis, foram pra que eu conseguisse reconhecer e perceber a importância de que eu quero ver feliz quem anda comigo. Ari, você tem sido crucial na minha vida. Eu sou o resultado e fruto direto das minhas relações e amizades e amores. Você só teve a contribuir com isso de maneira maravilhosa. Se hoje eu consigo ver que certos obstáculos estão sendo superados, é porque você esteve lá pra me ajudar a derrubá-los.

 

Eu não tenho nem como te agradecer por tudo que você me faz.

 

Se a vida é esse emaranhado de ideias brigando pra ver qual fará do mundo um lugar menos pior, eu quero estar ao seu lado pra respondermos sim à nossa imaginação.

 

Te amo muito,